Câncer colorretal: decisões que vão além da cirurgia e quimioterapia

O câncer colorretal inclui os tumores do cólon e do reto. Embora muitas vezes sejam agrupados sob o mesmo diagnóstico, a localização do tumor, o estágio da doença e suas características moleculares podem levar a estratégias de tratamento bastante diferentes.

Por isso, a definição do tratamento começa antes da escolha entre cirurgia ou quimioterapia. É preciso entender onde o tumor está localizado, se a doença está restrita ao intestino ou atingiu outros órgãos e quais características biológicas podem influenciar a resposta aos diferentes tratamentos.

Antes da definição do tratamento

A avaliação inicial começa pela confirmação do diagnóstico e pelo estadiamento da doença. A colonoscopia com biópsia estabelece o diagnóstico, enquanto os exames de imagem ajudam a determinar a extensão do tumor e identificar eventual comprometimento de outros órgãos.

No câncer de reto, existe uma etapa adicional particularmente importante: a ressonância magnética da pelve. Ela permite avaliar com maior precisão a extensão local do tumor, sua relação com estruturas próximas e os linfonodos regionais, informações que podem modificar a sequência do tratamento.

Outro ponto importante é a avaliação do sistema de reparo do DNA, conhecido como MMR, ou da instabilidade de microssatélites (MSI). Além de fornecer informações sobre a biologia do tumor e eventualmente levantar a possibilidade de uma síndrome hereditária, esse resultado pode determinar a indicação de imunoterapia em determinados cenários.

Na doença metastática, a avaliação molecular é ainda mais ampla. Alterações em genes como RAS e BRAF, além de outros biomarcadores em situações selecionadas, ajudam a definir quais terapias podem ou não ser utilizadas.

Na prática, dois pacientes com câncer colorretal aparentemente semelhantes podem receber tratamentos bastante diferentes.

Nem todo paciente precisa de quimioterapia após a cirurgia

Nos tumores de cólon localizados, a cirurgia frequentemente representa o principal tratamento.

Depois da operação, uma das decisões mais importantes é determinar se existe benefício em realizar quimioterapia complementar. Essa decisão não depende apenas do diagnóstico de câncer de cólon: consideramos o estágio, o comprometimento dos linfonodos, características anatomopatológicas do tumor, o status de MMR/MSI e as condições clínicas do paciente.

Em alguns pacientes, a quimioterapia reduz de forma relevante o risco de recorrência. Em outros, o benefício esperado pode ser pequeno e não justificar a exposição ao tratamento.

A discussão após a cirurgia deve partir de uma pergunta individual: qual é o risco de essa doença retornar e quanto podemos reduzir esse risco com o tratamento?

Câncer de reto: nem sempre o primeiro tratamento é a cirurgia

O câncer de reto merece uma estratégia própria.

Dependendo da localização e da extensão do tumor, pode ser recomendado tratamento antes da cirurgia, combinando quimioterapia e radioterapia em diferentes sequências. Esse conceito é conhecido como tratamento neoadjuvante e, em alguns cenários, como terapia neoadjuvante total.

Além de reduzir o risco de recorrência, o tratamento pré-operatório pode produzir respostas muito importantes.

Em pacientes cuidadosamente selecionados que apresentam resposta clínica completa, pode ser possível discutir uma estratégia de preservação do reto, evitando cirurgia imediata e realizando acompanhamento rigoroso. Essa estratégia, conhecida como watch and wait, não significa simplesmente "não operar": exige critérios específicos para determinar a resposta e um programa estruturado de acompanhamento.

As estratégias de preservação de órgão fazem hoje parte da discussão do tratamento do câncer de reto em pacientes selecionados.

Diagnóstico antes dos 50 anos

O câncer colorretal tem sido diagnosticado com frequência crescente em pessoas abaixo dos 50 anos, faixa etária que até pouco tempo não era considerada de risco habitual.

Nesse grupo, alguns pontos merecem atenção específica. A investigação de síndromes hereditárias é mais frequentemente indicada, o que pode ter implicações não apenas para o tratamento, mas também para o rastreamento de familiares. A avaliação de fertilidade antes do início de determinados tratamentos também faz parte da conversa, quando pertinente.

Além disso, o planejamento terapêutico costuma considerar um horizonte de acompanhamento mais longo, o que pode influenciar a escolha entre diferentes estratégias com eficácia semelhante.

Quando a imunoterapia pode o tratamento

A imunoterapia não é indicada para todos os cânceres colorretais. Sua eficácia está fortemente relacionada a uma característica molecular do tumor: a deficiência do sistema de reparo do DNA (dMMR) ou alta instabilidade de microssatélites (MSI-H).

Na doença metastática dMMR/MSI-H, a imunoterapia pode ser utilizada desde a primeira linha e produzir respostas prolongadas em uma parcela importante dos pacientes. Esse foi um dos avanços que mais modificaram o tratamento do câncer colorretal nos últimos anos.

No câncer de reto localizado com dMMR, os resultados com imunoterapia também têm sido particularmente relevantes, com possibilidade de respostas clínicas completas e, em pacientes selecionados, estratégias que podem evitar radioterapia e cirurgia. É uma área que exige avaliação especializada e acompanhamento rigoroso.

Conhecer o MMR/MSI não é apenas acrescentar uma informação ao laudo: em determinados pacientes, esse resultado pode modificar completamente a sequência do tratamento.

Quer entender qual é o seu caso?

A avaliação individualizada considera o laudo anatomopatológico, os exames de imagem e os testes moleculares já realizados.

Doença metastática: nem toda metástase tem a mesma estratégia

Quando o câncer colorretal se dissemina para outros órgãos, o primeiro passo é entender onde estão as metástases e se elas podem ser tratadas com intenção curativa.

Isso é especialmente importante quando a doença está limitada ao fígado ou aos pulmões. Alguns pacientes podem ser candidatos à cirurgia ou a outras estratégias locais. Em outros, o tratamento sistêmico pode ser utilizado inicialmente com o objetivo de reduzir a doença e permitir um tratamento local posteriormente.

Diante de metástases, a pergunta não deve ser apenas "qual quimioterapia utilizar?", mas também se existe possibilidade de ressecção ou de conversão para uma doença ressecável.

Quando o objetivo é o tratamento sistêmico, a escolha depende da extensão da doença, das condições clínicas do paciente, dos tratamentos prévios e da biologia do tumor.

Por que os biomarcadores fazem diferença na doença metastático

No câncer colorretal avançado, atualmente não é suficiente conhecer apenas o órgão onde o tumor começou.

Alterações em RAS e BRAF e o status MMR/MSI podem determinar quais tratamentos têm maior probabilidade de benefício. Em situações selecionadas, outras alterações moleculares também podem abrir possibilidades de terapias direcionadas.

A presença de uma mutação em RAS, por exemplo, interfere na utilização de medicamentos anti-EGFR. Já tumores com alterações específicas em BRAF possuem estratégias terapêuticas próprias. E, como vimos, tumores dMMR/MSI-H apresentam particular sensibilidade à imunoterapia.

A avaliação molecular faz parte da tomada de decisão e deve ser interpretada junto com a localização do tumor, a extensão da doença e o objetivo do tratamento.

Por que a discussão multidisciplinar faz diferença

O tratamento do câncer colorretal pode envolver oncologista clínico, cirurgião colorretal, radioterapeuta, radiologista, patologista e, quando existem metástases hepáticas ou pulmonares potencialmente tratáveis, equipes especializadas nesses órgãos.

A discussão conjunta é particularmente importante quando existem dúvidas sobre operar primeiro ou realizar tratamento sistêmico, tratar uma doença metastática com intenção curativa, preservar o reto ou definir a melhor sequência entre diferentes modalidades de tratamento.

Quando procurar uma segunda opinião

Uma segunda opinião pode ser útil após um diagnóstico recente, antes de uma cirurgia de maior complexidade ou quando existe dúvida sobre a necessidade de quimioterapia após uma operação.

Também pode ser especialmente importante no câncer de reto quando está sendo discutido tratamento antes da cirurgia, diante de um tumor dMMR/MSI-H, ou quando existe doença metastática potencialmente tratável com cirurgia ou outras estratégias locais.

Na recorrência ou progressão da doença, uma nova avaliação também pode ajudar a revisar os biomarcadores já realizados e definir quais possibilidades de tratamento ainda estão disponíveis.

O que trazer para consulta

Reunir alguns documentos antes da avaliação torna a consulta mais objetiva:
-Laudo anatomopatológico da biópsia ou da cirurgia
-Resultado dos testes moleculares já realizados (MMR/MSI, RAS, BRAF), se houver
-Exames de imagem em CD ou link de acesso, além dos laudos
-Relatório do médico assistente e descrição cirúrgica, quando já houve operação
-Relação dos tratamentos já realizados, com datas e número de ciclos
-Exames laboratoriais recentes e lista de medicamentos em uso

Se algum desses itens não estiver disponível, a consulta pode ser realizada assim mesmo e os documentos podem ser encaminhados depois.

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