Câncer de pâncreas: definir a estratégia inicial faz diferença
Quando falamos em câncer de pâncreas, na maioria das vezes estamos nos referindo ao adenocarcinoma ductal pancreático, o tipo mais frequente de tumor maligno do pâncreas.
Uma das decisões mais importantes após o diagnóstico é entender se a doença pode ser operada imediatamente, se o tratamento deve começar antes da cirurgia ou se a estratégia deve ser predominantemente sistêmica.
Essa definição não depende apenas do tamanho do tumor. A relação com os vasos sanguíneos próximos ao pâncreas, a presença ou não de doença em outros órgãos, as condições clínicas do paciente e algumas características biológicas do tumor podem modificar completamente a sequência do tratamento.
Nesta página: Ressecabilidade · Tumor ressecável · Borderline ressecável · Localmente avançado · Doença metastática · Testes genéticos · Cuidados de suporte · Segunda opinião
Antes de decidir o tratamento: entender a ressecabilidade
Após a confirmação do diagnóstico, os exames de imagem têm papel fundamental para determinar a extensão da doença.
No câncer de pâncreas, entretanto, não basta dizer que o tumor é "localizado". É preciso avaliar cuidadosamente sua relação com estruturas vasculares próximas ao pâncreas. A partir dessa análise, o tumor pode ser classificado como ressecável, borderline ressecável ou localmente avançado, além dos casos em que já existem metástases.
Essa classificação influencia diretamente a estratégia terapêutica e, em algumas situações, pode variar de acordo com a experiência da equipe cirúrgica. Casos em que existe dúvida sobre ressecabilidade se beneficiam particularmente de uma discussão multidisciplinar.
O marcador tumoral CA 19-9 também pode contribuir para essa avaliação, mas precisa ser interpretado no contexto clínico. Obstrução das vias biliares e icterícia, por exemplo, podem elevar o resultado mesmo sem significar maior quantidade de doença. Além disso, algumas pessoas não produzem CA 19-9. Ele nunca deve ser analisado isoladamente.
Tumor ressecável: a cirurgia nem sempre encerra o tratamento
Quando o tumor pode ser removido completamente, a cirurgia é uma etapa fundamental do tratamento com intenção curativa.
Mas o câncer de pâncreas geralmente exige integração entre tratamento local e sistêmico. Mesmo depois de uma cirurgia bem-sucedida, a quimioterapia costuma ser indicada para reduzir o risco de recorrência.
Em pacientes com boas condições clínicas, esquemas mais intensivos, como o FOLFIRINOX modificado, podem ser utilizados após a cirurgia. Para outros pacientes, existem alternativas menos intensivas, e a escolha deve considerar benefício esperado, idade, condições clínicas e recuperação pós-operatória.
Em determinadas situações, mesmo um tumor tecnicamente ressecável pode apresentar características que levem à discussão de tratamento antes da cirurgia. "É operável" não significa necessariamente "precisa operar primeiro".
Borderline ressecável: a sequência faz parte da decisão
Nos tumores chamados borderline ressecáveis, existe contato com vasos importantes que pode tornar mais difícil obter uma cirurgia com margens adequadas.
Nessa situação, frequentemente iniciamos o tratamento com quimioterapia, antes da operação.
O objetivo não é apenas tentar reduzir o tumor. O tratamento pré-operatório permite também tratar precocemente uma doença que pode já apresentar disseminação microscópica e observar o comportamento biológico do tumor antes de uma cirurgia de grande porte.
Depois de alguns meses, os exames são repetidos e a possibilidade de cirurgia é novamente discutida. Essa reavaliação é importante porque a ressecabilidade não deve ser considerada uma informação definitiva baseada somente no primeiro exame.
Localmente avançado: a discussão não termina no primeiro exame
Quando existe envolvimento vascular mais extenso, o tumor pode ser considerado localmente avançado e não ressecável inicialmente.
O tratamento costuma começar com terapia sistêmica. Se a doença permanece controlada e não surgem metástases, uma nova avaliação pode ser realizada posteriormente.
Em alguns pacientes, a resposta ao tratamento permite reconsiderar estratégias locais, incluindo cirurgia em centros experientes. Em outros, a radioterapia pode ter papel no controle local da doença.
Nesses casos, o acompanhamento não deve se limitar a observar se o tumor "diminuiu". É necessário revisar a relação com os vasos, a ausência de progressão à distância, o comportamento do CA 19-9 quando informativo e as condições clínicas do paciente.
Doença metastático: escolher o tratamento não é apenas escolher uma quimioterapia
Quando existem metástases, o principal tratamento é sistêmico.
Existem diferentes combinações de quimioterapia, como FOLFIRINOX, NALIRIFOX e esquemas baseados em gemcitabina, e não existe uma escolha adequada para todos os pacientes. A decisão considera idade, estado geral, sintomas, volume da doença, função hepática, tratamentos anteriores e objetivos terapêuticos.
Hoje existe outra pergunta que precisa fazer parte dessa avaliação: há alguma característica genética ou molecular que possa modificar o tratamento?
Quer entender qual é o seu caso?
A avaliação individualizada considera os exames de imagem, o laudo anatomopatológico e os testes genéticos e moleculares já realizados.
Testes genéticos e moleculares: por que importam no câncer de pâncreas
Atualmente, recomenda-se teste genético germinativo para todos os pacientes com câncer de pâncreas, mesmo quando não existe história familiar importante de câncer.Isso é relevante por duas razões.
A primeira é que alterações hereditárias em genes como BRCA1, BRCA2, PALB2 e outros relacionados à predisposição ao câncer podem ter implicações para o próprio paciente e também para seus familiares.
A segunda é que algumas dessas alterações podem influenciar a escolha do tratamento. Tumores associados a defeitos de reparo do DNA, por exemplo, podem apresentar maior sensibilidade a determinados quimioterápicos e, em situações específicas, permitir estratégias de manutenção direcionadas.
Na doença avançada, o perfil molecular do tumor também pode identificar alterações menos frequentes, como MSI-H/dMMR, fusões NTRK, alterações de BRAF e outras anormalidades potencialmente tratáveis. Embora ocorram em uma minoria dos pacientes, encontrá-las pode abrir possibilidades terapêuticas que não seriam identificadas apenas olhando o tumor ao microscópio.
O tratamento está começando a ir além da quimioterapia
A maioria dos adenocarcinomas pancreáticos apresenta alterações na via RAS, uma característica que historicamente foi muito difícil de tratar diretamente. Isso está mudando.
Em agosto de 2026, o FDA aprovou nos Estados Unidos o daraxonrasib, um inibidor de RAS, para pacientes com adenocarcinoma pancreático metastático previamente tratados ou que não são candidatos a tratamento sistêmico com múltiplos medicamentos.
É importante esclarecer que se trata de uma aprovação americana. O medicamento ainda não tem registro na Anvisa, e a disponibilidade no Brasil depende de submissão regulatória, definição de preço e regras de acesso — um processo que não tem prazo definido.
Ainda assim, essa aprovação reforça uma mensagem prática: conhecer a biologia do tumor está se tornando cada vez mais relevante também no câncer de pâncreas.
Cuidar do paciente também faz parte de cuidado
O câncer de pâncreas e seus tratamentos podem interferir na digestão, na alimentação e no controle da glicose.
Alguns pacientes desenvolvem insuficiência pancreática exócrina, com dificuldade de absorver adequadamente os alimentos, perda de peso ou alterações nas fezes. Nesses casos, a reposição de enzimas pancreáticas pode ser necessária.
Obstrução das vias biliares, dor, alterações nutricionais e diabetes também podem precisar ser tratados paralelamente ao tratamento oncológico.
Isso é especialmente importante porque manter o paciente clinicamente bem pode permitir que ele receba o tratamento oncológico de forma mais adequada.
Por que abordagem multidisciplinar faz diferença
O tratamento do câncer de pâncreas pode envolver oncologista clínico, cirurgião especializado em pâncreas, radiologista, gastroenterologista, radioterapeuta, patologista, nutricionista e outros profissionais.
A discussão conjunta é especialmente importante quando existe dúvida sobre operar primeiro ou realizar quimioterapia antes da cirurgia, se um tumor inicialmente considerado irressecável pode ser reavaliado posteriormente, ou qual estratégia utilizar diante de progressão da doença.Em câncer de pâncreas, definir corretamente a sequência dos tratamentos pode ser tão importante quanto escolher qual tratamento realizar.
Quando procurar uma segunda opinião
Uma segunda opinião pode ser particularmente útil logo após o diagnóstico, principalmente quando existe dúvida sobre a possibilidade de cirurgia ou quando está sendo discutido tratamento antes da operação.
Também pode ser importante diante de um tumor borderline ressecável ou localmente avançado, antes de uma cirurgia de maior complexidade, na recorrência ou progressão da doença, e quando é necessário revisar testes genéticos ou moleculares para avaliar novas possibilidades terapêuticas.
O que trazer para consulta oncológica
-Laudo anatomopatológico da biópsia ou da cirurgia
-Exames de imagem em CD ou link de acesso, com os laudos — a tomografia com protocolo de pâncreas é especialmente importante
-Resultados de testes genéticos ou moleculares, se já realizados
-Resultados de CA 19-9, com as datasRelatório do médico assistente e descrição cirúrgica, quando já houve operação
-Relação dos tratamentos já realizados, com datas e número de ciclos
-Exames laboratoriais recentes e lista de medicamentos em uso
Se algum desses itens não estiver disponível, a consulta pode ser realizada assim mesmo e os documentos podem ser encaminhados depois.
Agende uma consulta
Atendimento oncológico individualizado, com revisão do diagnóstico, avaliação da ressecabilidade, estágio da doença, condições clínicas e características genéticas e moleculares relevantes para a definição da estratégia de tratamento.Consultas presenciais em São Paulo, no Itaim Bibi e no Paraíso.
E também por teleconsulta, permitindo a avaliação de pacientes de outras cidades e a discussão de segunda opinião oncológica.
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